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Você não pode ser apenas um passageiro

Foto do escritor: Felipe Figueirêdo de Carvalho
Felipe Figueirêdo de Carvalho
10 de out.
6 min de leitura

Há mais ou menos dois anos, comecei a acompanhar mais de perto a operação do Grupamento de Operações Aéreas do Corpo de Bombeiros.

Na época, eu estava do outro lado, como chefe de plantão do SAMU Salvador, participava das regulações e dos acionamentos das equipes aeromédicas. Via a aeronave sendo empregada em atendimentos primários e começava a entender o tamanho das possibilidades que existiam ali. Até então, helicóptero, para mim, ainda tinha muito daquele imaginário que provavelmente existe para todo médico de emergência.

É bonito.É rápido.É emocionante.


Mas eu ainda não entendia exatamente o que significava pertencer àquela operação.

No pré-Carnaval de 2026, tive a oportunidade de participar de um plantão com a equipe.

Não tivemos nenhuma ocorrência naquele dia. E, ironicamente, foi justamente em um dia sem pacientes que comecei a aprender uma das maiores lições dessa história:

antes de qualquer resgate, vem a segurança. Aprendi como me aproximar da aeronave. Onde ficar. Como embarcar. Como desembarcar. O que observar. Como me comportar.

E comecei a perceber que, naquele ambiente, saber intubar, tratar um choque ou conduzir uma parada cardiorrespiratória era apenas uma parte do que eu precisava saber.

A partir dali nasceu uma vontade.

Eu queria fazer parte daquilo.


Nos meses seguintes, essa vontade deixou de ser apenas minha.

Começamos a conversar sobre como tornar aquela integração mais frequente. A residência de Medicina de Emergência já participava de algumas operações, nós começamos a ocupar alguns espaços de forma intermitente e, aos poucos, surgiu a possibilidade de construir algo maior. Foi então que ouvimos repetidamente uma frase do Corpo de Bombeiros:

“Vocês não podem ser apenas passageiros dentro da aeronave.”

Aquilo ficou na minha cabeça.

Porque era exatamente isso.

Se a gente quisesse construir uma operação aeromédica de verdade, não bastava colocar um médico e um enfermeiro dentro de um helicóptero.

Precisávamos fazer parte da tripulação.

Precisávamos entender segurança de voo.

Precisávamos conhecer a aeronave.

Precisávamos estar preparados para uma emergência durante o voo.

Precisávamos saber operar em ambientes hostis.

E, se necessário, participar do próprio resgate.

Antes de cuidar de alguém dentro daquela aeronave, precisávamos aprender a não ser um problema dentro dela.

Precisávamos nos tornar Operadores de Suporte Médico.


Foi assim que, em setembro, começou uma das semanas mais intensas da minha vida.

O primeiro Curso de Operador de Suporte Médico realizado pelo Corpo de Bombeiros Militar da Bahia.

Segunda-feira. Seis da manhã. Treinamento físico. Instrução teórica. Aeronave. Voo. Embarque. Desembarque. Posicionamento. Segurança.

E, a cada dia, alguma coisa ficava mais difícil.

O que começou no solo passou para a aeronave em funcionamento.

Depois, pairado.

Depois, rapel.

Treinamentos de emergência dentro da aeronave.

Escuro.

Barulho.

Desorientação.

Estresse.

Tudo propositalmente desconfortável.

Porque ninguém escolhe as condições em que uma emergência vai acontecer.

E eu fui percebendo que aquele curso tinha muito menos a ver com aprender coisas “radicais” do que eu imaginava. Era sobre continuar funcionando quando o ambiente ao seu redor deixa de colaborar. Talvez isso também explique por que me apaixonei pela Medicina de Emergência.


Só que havia outro treinamento acontecendo naquela semana.

Esse ninguém tinha colocado na programação.

Eu saía de casa muito cedo e voltava muito tarde.

Durante praticamente uma semana, quase não vi Chiquinho acordado.

E aquilo começou a pesar.

Porque existe uma parte das nossas escolhas profissionais que ninguém coloca no currículo.

Toda vez que dizemos “sim” para alguma coisa que desejamos muito, provavelmente estamos dizendo “não” para outra.

Às vezes é uma noite de sono.

Às vezes é um fim de semana.

Às vezes é chegar em casa antes de seu filho dormir.

E talvez amadurecer profissionalmente também seja aprender a perguntar:

isso ainda vale a pena para mim?

Naquela semana, apesar da saudade, a resposta continuava sendo sim.

Eu precisava terminar aquilo.


Então chegou a sobrevivência.

Rapel.

Paredão.

Rapel da aeronave.

Sobrevivência na água.

Uma noite inteira que provavelmente deve permanecer entre quem estava lá.

Depois, sobrevivência na mata.

Cansaço físico.

Privação.

Estresse mental.

Mais cansaço.

Houve momentos em que pensei que não conseguiria.

De verdade.

O corpo estava cansado e a cabeça começava a negociar.

“Já deu.”

“Você não precisa disso.”

“Para por aqui.”

E talvez você nunca tenha ficado pendurado em uma aeronave, passado uma noite em treinamento de sobrevivência ou entrado numa mata depois de dias dormindo pouco.

Mas provavelmente conhece essa voz.

Ela aparece quando você estuda para uma prova importante.

Quando começa uma residência.

Quando assume um plantão que assusta.

Quando tenta aprender um procedimento novo.

Quando escolhe um caminho profissional e, no meio dele, começa a se perguntar se realmente consegue chegar até o final.

Eu também ouvi essa voz.

E continuei.

Não sozinho.


Essa talvez tenha sido a parte mais bonita de toda a experiência.

Entramos ali médicos e enfermeiros de lugares diferentes, alguns praticamente sem se conhecer.

Saímos como uma equipe.

E isso não aconteceu apesar da pressão.

Em parte, aconteceu por causa dela.

Quando você está cansado, com fome, desconfortável e sob estresse, algumas coisas deixam de importar.

Cargo deixa de importar.

Instituição deixa de importar.

Ego deixa de importar.

Você começa a olhar para o lado.

Um ajuda o outro.

Um espera o outro.

Um percebe quando o outro está chegando no limite.

No final, todo mundo precisa chegar.

Isso também é resgate.


Depois de tudo, voltamos para a base.

Era dia de Cosme e Damião.

E fomos recebidos com caruru.

Pode parecer um detalhe completamente aleatório depois de uma semana de aeronave, rapel, água e mata.

Para mim, foi um dos momentos mais marcantes.

Porque aqueles mesmos instrutores que tinham nos pressionado, cobrado e levado ao limite estavam ali celebrando conosco. Ficou claro que nunca tinha sido sobre simplesmente dificultar. Eles queriam que desse certo. Queriam que estivéssemos preparados. Queriam poder confiar em nós dentro da aeronave deles. E nós precisávamos confiar neles também. Naquele momento, eu entendi que alguma coisa tinha mudado.

Já não parecia mais Corpo de Bombeiros de um lado, SAMU e Hospital Municipal do outro.

Parecia uma tripulação.


Voltei para casa destruído.

E feliz.

Encontrei Mila.

Encontrei Chiquinho.

Encontrei meus pais.

Encontrei minha família.

Depois de uma semana querendo viver intensamente aquilo que estava acontecendo e, ao mesmo tempo, querendo desesperadamente estar em casa, finalmente as duas coisas estavam no mesmo lugar.

Só faltava a formatura. E por causa do plantão, por pouco eu não conseguiria ir. Consegui organizar a passagem à meia-noite e fui. Eu sabia que tinha me dedicado muito ao curso.

Sabia que tinha ido bem.

Mas não estava esperando nada.

Até chamarem meu nome.

Primeiro colocado.

Primeiro colocado do primeiro Curso de Operador de Suporte Médico realizado pelo Corpo de Bombeiros Militar da Bahia.

Eu fiquei com um nó na garganta. Porque naquele momento não pensei na colocação. Pensei no caminho.

Na primeira vez que entrei naquela aeronave.

Nas conversas tentando fazer aquilo acontecer.

Nos plantões.

Nos treinamentos.

Na água.

Na mata.

Nas vezes em que achei que não conseguiria.

Nas manhãs em que saí de casa sem ver meu filho acordado.

E pensei também no uniforme que eu estava vestindo.

No SAMU Salvador.

Um lugar que me ensinou uma parte enorme do médico que sou hoje.

Só que, quando olhei para fora, tinha algo ainda mais importante.

Meus pais estavam ali. E Chiquinho também. Ele obviamente ainda não entendia por que o pai estava recebendo aquilo. Talvez um dia eu conte essa história para ele.

E talvez eu nem fale muito sobre ter ficado em primeiro lugar.

Quero contar outra coisa.

Quero contar que existem momentos na vida em que alguma coisa faz seus olhos brilharem.

E que vale a pena prestar atenção neles.

Porque, depois de tantos anos estudando Medicina, é muito fácil deixar a profissão virar apenas trabalho.

Plantão.

Salário.

Escala.

Título.

Currículo.

Próxima obrigação.

E eu não quero que seja só isso.

Ainda quero encontrar coisas que me façam acordar cedo empolgado.

Quero continuar sentindo frio na barriga antes de aprender alguma coisa nova.

Quero continuar encontrando pessoas que sabem muito mais do que eu e tendo vontade de aprender com elas.

Quero continuar chegando em casa cansado algumas vezes, olhar para Mila e Chiquinho e pensar:

“Caramba. Hoje valeu a pena.”

Talvez você esteja vivendo uma fase em que a Medicina perdeu um pouco desse brilho.

Eu já vivi algumas.

E provavelmente ainda vou viver outras.

Mas, de vez em quando, aparece alguma coisa que lembra por que começamos.

Para mim, dessa vez, veio com barulho de rotor.

E eu descobri que não queria apenas estar dentro daquela aeronave.

Eu queria estar preparado para quando alguém precisasse que ela chegasse.

 
 
 

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