Um dia você acorda e percebe que não se reconhece mais.
- Felipe Figueirêdo de Carvalho
- 8 de ago.
- 3 min de leitura
Um dia você acorda e percebe que não se reconhece mais.
Sobre se entregar sem se perder
Talvez isso nunca tenha acontecido com você. Talvez esteja acontecendo agora.O curioso é que isso quase nunca acontece de uma vez. Não existe um grande evento. É um processo silencioso. Um pouco a cada dia.
Eu quero te contar uma história.
Havia um menino chamado Felipe. Com 16 anos, no terceiro ano do ensino médio, ele não fazia ideia do que queria fazer da vida. Biologia parecia interessante. Engenharia também. Oceanografia aparecia de vez em quando. Medicina? Nem entrava na lista.
Até que entrou.
Começou a faculdade ainda muito novo, cheio de dúvidas. O foco não era viver para a medicina. Era viver. Namorar Mila, encontrar os amigos, aproveitar a família, surfar, descobrir quem era. A medicina era apenas uma parte da vida. Mas, aos poucos, ela começou a ocupar mais espaço.
Veio o internato.
E, logo depois, a pandemia.
Enquanto o mundo parava, milhares de profissionais entravam em hospitais sem saber exatamente o que encontrariam. Gente que se expunha todos os dias para cuidar de desconhecidos. Aquilo mexeu comigo.
Afastado dos cenários de prática, apareceu uma oportunidade: o TeleCorona. Pode parecer pouco olhando de fora. Mas, do outro lado da linha, existiam pessoas assustadas procurando alguém que pudesse orientá-las. Foram centenas de atendimentos. As ligações eu terminava muito emocionado. Ali começou uma busca que nunca mais parou.
Quando o internato voltou, eu tinha uma sensação difícil de explicar. Parecia que fazer apenas o obrigatório não era suficiente. Comecei a aumentar minha carga horária, procurar estágios extras, estudar mais, passar mais tempo na emergência.
Foi nessa época que nasceu minha paixão pelo SAMU.
Vieram plantões, cursos, incontáveis horas de estudo e experiências que moldaram o médico que sou hoje. E eu faria tudo de novo.
Mas existe um detalhe nessa história. Enquanto eu me tornava um médico melhor, sem perceber, fui deixando outras partes de mim para trás.
Se alguém me perguntasse quem eu era, minha resposta seria apenas uma profissão.
"Sou médico."
Mas... e o resto?
Onde estava o surf?
Onde estava a namorada?
O pai que eu sonhava ser?
O amigo?
A pessoa curiosa que gostava de aprender sobre assuntos completamente diferentes da medicina? Tudo continuava existindo. Só que escondido atrás do jaleco. Foi então que percebi uma coisa, nós não somos aquilo que fazemos, nós fazemos muitas coisas.
A profissão pode ocupar boa parte da nossa vida, mas ela nunca deveria ocupar toda a nossa identidade. Porque, quando isso acontece, qualquer dificuldade no trabalho parece uma crise existencial. E isso vale para qualquer profissão. Médicos, professores, empresários, atletas...
É bonito se entregar.
É necessário buscar excelência.
Mas existe uma linha tênue entre dedicação e desaparecimento.
Hoje eu continuo apaixonado pela medicina. Estudo todos os dias. Dou aulas. Faço plantões. Construo projetos. Mas também faço questão de voltar para casa para:
Brincar com meu filho.
Pegar uma prancha quando posso.
Conversar com minha esposa.
Ler um livro que não tenha nenhuma relação com emergência.
Porque, no fim das contas, eu não quero apenas construir uma carreira da qual eu me orgulhe. Quero construir uma vida da qual eu me reconheça. Talvez a pergunta mais importante não seja:
"Quanto você está entregando ao seu trabalho?"
Talvez seja outra.
O que de você ficou para trás enquanto fazia isso?

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