Quando o médico vira acompanhante
No último domingo eu deixei de ser médico.
Ou pelo menos tentei.
Francisco precisou ser internado por conta de uma bronquiolite. Um ano e dois meses de vida. Pequeno demais para explicar o que sentia. Pequeno demais para entender por que estava recebendo medicação, sendo examinado por estranhos ou acordando em um quarto de hospital.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava do lado de quem responde às perguntas.Eu era quem fazia as perguntas.
Durante a maior parte da minha vida profissional, estive do outro lado.
Sou eu quem conversa com familiares angustiados.Sou eu quem explica exames.Sou eu quem tenta transmitir segurança quando tudo parece incerto.Sou eu quem diz que vamos acompanhar a evolução hora a hora.
Mas quando o paciente é seu filho, algo muda.
Na verdade, tudo muda.
Eu sabia o que era bronquiolite.Sabia quais sinais me preocupariam.Sabia quais eram os possíveis caminhos daquela internação.
E, ainda assim, parecia que eu não sabia nada.
Porque conhecimento e sofrimento não ocupam o mesmo espaço da mesma forma.
Em vários momentos eu tentava raciocinar como médico. Olhava a monitorização.Observava a frequência respiratória.Tentava interpretar cada detalhe.
Mas bastava olhar para ele para que todo o raciocínio técnico fosse atropelado por uma única pergunta: “Ele vai ficar bem?”
Não era uma pergunta de médico.
Era uma pergunta de pai.
Talvez o momento mais difícil tenha sido na segunda-feira.
Eu tinha um plantão para cumprir. Mila ficou no hospital com ele e eu precisei sair.
Entrei no carro e chorei. Não porque algo grave estivesse acontecendo. Não porque alguém tivesse me dado uma notícia ruim. Mas porque eu estava indo embora.
E existe uma sensação estranha de impotência quando a pessoa que você mais ama no mundo está internada e você não pode simplesmente resolver aquilo.
Curiosamente, naquele momento eu entendi melhor muitos familiares que encontrei ao longo dos anos.
Entendi quem faz a mesma pergunta três vezes.
Entendi quem não consegue prestar atenção na explicação.
Entendi quem esquece orientações simples.
Entendi quem busca confirmação o tempo inteiro.
O sofrimento ocupa espaço demais.
Às vezes ele ocupa tanto espaço que não sobra lugar para a lógica.
Eu já sabia disso como médico.
Mas só fui sentir isso como acompanhante.
Graças a Deus, Francisco recebeu alta na terça-feira.
Hoje está em casa, fazendo fisioterapia respiratória e melhorando a cada dia.
E ficou uma reflexão que talvez eu carregue para todos os próximos plantões.
Por mais conhecimento que alguém tenha, quando a doença atravessa a porta da própria casa, quase todo mundo vira apenas filho, pai, mãe, esposo ou acompanhante.
E talvez seja por isso que empatia nunca deva ser tratada como um detalhe da medicina.
Porque um dia, inevitavelmente, todos nós atravessamos para o outro lado do leito.

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