A primeira paciente que perdi no SAMU e o que ela pode te ensinar
Mais um dia na intervenção, rodando na ambulância.
Até então, todo plantão era sinônimo de entusiasmo. Eu queria ocorrência. Queria paciente grave. Queria fazer procedimentos. Amava a adrenalina e a sensação de poder ajudar alguém nos piores momentos da vida.
E, até aquele dia, tudo tinha dado certo.
Por volta das 11 horas da manhã veio o chamado: "Apoio a uma Unidade Básica de Saúde. Paciente com dispneia."
Mais uma ocorrência. Ou pelo menos era isso que eu imaginava.
Quando entrei na sala, encontrei uma das pacientes mais graves que já vi na minha carreira.
Uma mulher de 63 anos, deitada na maca.
Respirava usando absolutamente toda a musculatura acessória possível, mas já sem força suficiente para ventilar. A respiração era superficial. A saturação marcava 61%, mesmo recebendo oxigênio a 15 litros por minuto em máscara não reinalante.
Ali eu ainda não conhecia a história.
Não sabia o diagnóstico.
Não sabia havia quanto tempo ela estava assim.
Só sabia que ela estava morrendo.
Nessas horas, não existe espaço para desespero.
Existe método.
Comecei exatamente como fui treinado.
X: sem sangramento.
A: via aérea pérvia.
B: taquipneia intensa, ventilação superficial, ausculta pulmonar praticamente sem alterações.
C: pele fria, pálida, sudoréica, tempo de enchimento capilar prolongado, sinais claros de choque.
D: Glasgow 12.
E: sem outros achados relevantes.
A família aguardava do lado de fora.
Eu queria conversar.
Queria entender a história.
Mas naquele momento cada segundo precisava ser investido tentando mantê-la viva.
Iniciamos ventilação com bolsa-válvula-máscara enquanto a equipe buscava um acesso venoso.
A saturação praticamente não respondia.
Minha cabeça tentava acompanhar tudo ao mesmo tempo.
Ela tinha uma hipoxemia gravíssima
Estava entrando em falência respiratória.
Estava em choque.
Mas em choque por quê?
Sem ultrassom na ambulância naquela época, eu precisava tomar decisões com as informações que tinha.
Após conseguir o acesso venoso, iniciei um bolus de 250 mL de Ringer Lactato enquanto preparávamos push-dose de adrenalina para manter uma perfusão mínima. Ao mesmo tempo, indiquei a intubação orotraqueal com etomidato e succinilcolina.
A intubação foi rápida. Sem intercorrências. Tubo em posição. Ausculta bilateral.
Mas a saturação...
...continuava muito baixa.
Administramos novas doses de adrenalina enquanto preparávamos a noradrenalina.
Eu precisava ganhar alguns minutos.
Só mais alguns minutos para conversar com a família.
Para descobrir a história.
Para entender o que realmente estava acontecendo.
Mas esse tempo nunca veio.
Ela entrou em parada cardiorrespiratória. Iniciamos imediatamente o suporte avançado. Reavaliei tudo. Via aérea. Ventilação. Circulação.
O ritmo era atividade elétrica sem pulso.
Naquele momento uma hipótese começou a crescer dentro da minha cabeça.
E se fosse um tromboembolismo pulmonar maciço?
Mas qual era a história?
Ela tinha fatores de risco?
Tinha dor torácica?
Imobilização?
Cirurgia recente?
Eu ainda não sabia.
Enquanto essas perguntas surgiam, o relógio continuava andando.
E, infelizmente, naquele dia ele foi mais rápido do que nós.
Depois que tudo terminou, permaneci alguns minutos dentro da ambulância.
Não porque havia mais alguma conduta a fazer.
Mas porque eu precisava criar coragem para sair dali e conversar com a família.
Até hoje lembro daquele caminho até a porta.
Lembro da sensação de que eu precisava demonstrar segurança para eles...
...quando, na verdade, era eu quem estava completamente quebrado por dentro.
Foi a primeira paciente que perdi no SAMU.
Naquele dia fui para casa carregando perguntas que talvez todo médico faça depois da primeira perda.
Será que eu não fui suficiente?
Será que eu deixei passar alguma coisa?
Será que eu sirvo para isso?
Durante muito tempo procurei erros naquela ocorrência. E sabe de uma coisa?
Hoje, olhando para trás, eu ainda encontro coisas que faria diferente.
Porque a medicina nos transforma justamente assim.
Cada paciente nos ensina.
Cada erro nos ensina.
Cada perda também.
Mas também aprendi outra lição.
Existem pacientes que chegam até nós já travando uma corrida contra o tempo que, às vezes, simplesmente não conseguimos vencer.
Isso não diminui a dor. Não torna mais fácil. Mas nos lembra que nosso papel não é vencer todas as batalhas. É entregar tudo o que sabemos em cada uma delas.
Algumas vezes sairemos da ocorrência comemorando. Outras vezes voltaremos em silêncio.
E talvez sejam justamente esses silêncios que mais moldam o médico que nos tornamos.
Eu nunca esqueci aquela paciente.
E espero nunca esquecer.
Porque algumas pessoas passam pela nossa vida por poucos minutos.
Mas continuam nos ensinando pelo resto da carreira.

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