Chiquinho vai fazer medicina, né?
- Felipe Figueirêdo de Carvalho
- há 4 dias
- 2 min de leitura
Essa talvez seja uma das frases que eu mais escuto desde que meu filho nasceu.
“Chiquinho vai fazer medicina, né?”
Eu, sinceramente, respondo logo
“Rapaz… não é bem assim.”
Brincadeiras à parte, eu tenho duas grandes ressalvas quando penso nisso.
A primeira é que o perfil da medicina mudou muito.
Mudou o mercado. Mudou quem contrata. Mudou quem procura atendimento. Mudou a forma como a sociedade enxerga o médico. E mudou também a expectativa sobre o que é “dar certo” dentro da profissão.
A segunda é que o caminho ficou absurdamente longo.
Faculdade.Residência.Subespecialização.Cursos.Provas.Títulos.Networking.Produção.Imagem. Hoje, para muitos médicos serem socialmente aceitos dentro de determinados meios, existe uma jornada cada vez mais extensa — e cheia de abdicações que, às vezes, podem não compensar. Tempo longe da família.Sono perdido.Ansiedade.Plantões.Pressão constante. A sensação de estar sempre atrasado em relação a alguém.
E eu digo isso sendo alguém apaixonado pela medicina.
Sempre achei que, para fazer medicina, precisava existir muito amor pela profissão. E continuo acreditando nisso. Mas também sou obrigado a admitir que a medicina deixou de ser uma estrada única. Existem inúmeras formas de viver essa profissão hoje.Nem todas passam pela assistência tradicional.Nem todas exigem aquele modelo antigo do “médico que vive só para medicina”.E talvez isso seja bom.
Talvez a nova geração esteja começando a entender que ser médico não pode custar a própria vida.
Por isso, se um dia Chiquinho quiser fazer medicina, espero que essa decisão venha menos do glamour da profissão… e mais da compreensão real do que existe depois do jaleco. Porque o sonho não é “ser médico”.
O sonho precisa ser a vida que você quer construir através disso.
Apesar de todas essas reflexões, eu ainda acredito profundamente na medicina.
Ainda acredito no impacto.Na transformação.Na sensação de ajudar alguém em um dos piores dias da vida dela.Na adrenalina da emergência.Na conexão humana que existe quando tudo parece perdido.
Ser médico ainda pode ser algo extremamente recompensador.
Então, se eu pudesse deixar apenas um conselho para quem pensa em seguir esse caminho, seria: “Acredite na jornada. Coloque os pés no chão. E vá com paciência.”
Porque a medicina talvez tenha mudado.
Mas propósito continua sendo propósito.

Comentários