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Sobre o que separa o médico que aplica técnica do médico que toca uma vida — e por que isso faz toda a diferença quando o desfecho está por um fio.

  • Foto do escritor: Felipe Figueirêdo de Carvalho
    Felipe Figueirêdo de Carvalho
  • 29 de abr.
  • 3 min de leitura

Estava eu em mais uma aula prática dando aula para os alunos, momentos que muitas vezes são muito direcionados ao tema do dia, as condutas exatas, sem muito tempo para pensar, afinal estamos falando de emergência. Cada segundo realmente muda tudo! O tema era taquiarritimias (o coração está funcionando errado), para isso muitas vezes precisamos de decisão rápida, pois gera um risco imediato à vida. Tratamento principal em quadros graves é a cardioversão (dar um choque no peito do paciente)!


Um aluno para e me pergunta sobre o mnemonico (ISASCO/OSASCO) que usamos para lembrar as etapas antes de chegar nesse tal choque: “professor a primeira letra fala sobre informar/orientar, mas o quadro é muito grave, não seria melhor adiantar logo o choque”. Eu parei e fiquei muito pensativo sobre aquilo, mas eu tinha a resposta certa! Casos como esse não são incomuns, mas eu carrego comigo um que foi muito especial!


Estava eu no Rio Grande do Sul, especificamente em canoas, missão da enchente que devastou a região. Tenda improvisada, era o nosso hospital, mas uma coisa que ali não faltava era humanidade entre os profissinais. Após um bom atendimento em uma idosa ela disse que iria ligar para o filho pra ele também, pois haviam dois dias que ele não se sentia bem! Minutos após chega ele, aquele paciente que da porta você olha e fala VERMELHA agora!


Não tinha conversa, ele não estava bem, diversas alterações geradas pela tal da taquiarritimia, tratamento nesse momento: CHOQUE! E vamos nós, eu e me amigo irmão Felipe Carneiro, os dois no plantão juntos, fazer a primeira letra do mnemonico. Começamos a explicar para ele o que seria necessario ser feito, ele estava com o irmão e ele estava ali do lado sendo orientado também. Mas aqueles dois, provavelmente não estava absorvendo quase nada do que falávamos, eles ja tinha perdido muito naquela tragedia, porque mais uma coisa ? Acabado a orientação ele para e pergunta: Dr, eu posso morrer? E a resposta era uma só: Pode, mas a gente vai fazer o nosso melhor ( disse Felipe Carneiro). O acompanhante, forte, acolhe o irmão e sai para seguirmos com o que tem que ser feito! Matérias sendo preparados, vou rapidamente de encontro com o irmão e o encontro em prantos, me mantenho firme, vamos dar o nosso melhor!


Feito o tratamento, ritmo retorna ao normal, paciente acorda da sedação! Tipo ver o GOL da seleção brasileira em final da copa do mundo. Equipe do nosso improvisado hospital em prantos! Um irmão abraça o outro. Eu abraço Lipe. Vencemos. Voltando para perguntado do aluno, a resposta poderia se resumir: a vida merece respeito e quando ela está por um fio, se transforme nele pra tentar puxa-la de volta. Promessas não podem ser feitas, mas se colocar humano ali faz uma extrema diferença, mesmo que o desfecho não seja favorável.


“Seja apenas uma alma humana ao tocar outra alma humana”

A história foi longa, mas é uma história real! Leve com você uma coisa, a vida pode acabar a qualquer momento, sem promessas, sem compromissos e até sem finais felizes. Por isso eu digo VIVA. Faça o que tem que ser feito e nada menos que trate as pessoas como se nunca mais fosse vê-las! Trágico? Eu diria que não, a vida ganha uma cor diferente quando se coloca intenção.


Para fechar, eu recomendo um livro que aborda o tema de como a vida pode ser finita e que se deve aproveita-lá com responsabilidade, mas com essa intenção na criação de momentos! O livro é Morra Sem Nada de Bill Perkins.

 
 
 

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